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A Invasão da Ucrânia, a ideia e o espírito de Cruzada


A cruel invasão da Ucrânia despertou no Ocidente legitimas e abnegadas reações de jovens em 52 países. Somam 20 mil voluntários à Legião Internacional em defesa territorial da Ucrânia.

As disposições físicas e espirituais desses voluntários nos trazem à mente a abnegação daqueles católicos que em outras épocas se levantaram em defesa da Igreja. Seja nas Cruzadas, seja em Lepanto (1571), seja em defesa do Papa Pio IX, injustamente perseguido e na defesa dos territórios pontificios invadidos por forças anticlericais, garibaldinos, carbonários no século XIX.

Que pensar da invasão da Ucrânia pelas tropas de Putin? Publicamos um trecho ilustrativo sobre a guerra santa, a liceidade da guerra.        

A idéia e o espírito da cruzada: a guerra santa

          “Hoje, a palavra cruzada tornou-se sinônimo de uma atitude psicológica agressiva e intolerante.

          Agressividade e cruzada são, na realidade, termos incompatíveis. A cruzada foi um empreendimento de defesa contra uma agressão e seria um grave erro confundir a violência com a força, a agressão injusta com a legítima defesa.

          A Igreja, desde os primeiros séculos, elaborou — sobretudo com Santo Agostinho — a doutrina da guerra justa.

          Uma guerra pode ser justa ou injusta segundo o seu fim e as circunstâncias.

Guerra injusta é toda a guerra agressiva. Guerra justa é toda a guerra que visa defesa contra uma agressão ou recuperação de um bem do qual se foi injustamente privado.

          Entre os diferentes géneros de guerra justa, a mais perfeita, se assim pode ser definida, é a que tem como objetivo repelir uma agressão feita não contra bens materiais, mas contra bens espirituais como a fé, ou a identidade cristã do povo. Neste caso a guerra justa pode-se tornar, segundo a doutrina da Igreja, guerra santa e pode, ou deve, ser promovida pela própria Igreja antes mesmo que pelos soberanos ou pelos Estados.

          Guerra santa foi a cruzada prégada por Urbano II para libertar o Santo Sepulcro e recuperar a Terra Santa. Guerras santas, no sentido mais amplo do termo, foram as grandes batalhas empreendidas pela Cristandade contra os turcos em Lepánto e em Viena. Guerra santa, cruzada, foi a reconquista de Portugal, invadido pelos Mouros em 1139, que consagrou a independencia do País sob o primeiro rey D. Afonso Henriques.

          Hoje ouvimos dizer que, no fundo, a perspectiva dos cruzados não era diversa da dos seus inimigos muçulmanos: ambos promoviam uma “guerra santa” para impor a propria religião.

          Esta formulação do problema revela uma profunda incomprensão da nossa religião [Católica] e do islamismo.

          A religião islâmica é uma religião meramente exterior. Para a “conversão ao Islão” não se requer nada mais do que a profissão monoteística e uma série de atos formais: a peregrinação à Meca, o jejum no Ramadam, a esmola e a oração ritual. Além de tais prescrições formais não se requer, no Islão, uma transformação da alma, uma conversão interior. A Jihad, a guerra santa islâmica, contrariamente à guerra santa cristã, é uma guerra ofensiva, é uma guerra de agressão, precisamente porque o Islão não conhece a dimensão interior característica do Cristianismo.

          Com efeito, a nossa religião [Cat[olica] é uma religião interior que se alimenta na vida sobrenatural da alma. O Baptismo é o sacramento que insere esta vida sobrenatural, a vida da Graça, em nossas almas: com isso o homem é objecto de uma transformação interior, torna-se um homem novo que tem o fundamento da sua nova vida em Jesus Cristo, que diz: “Eu sou a vida, vós as videiras” (Jo, 15, 5).

          Esta religião interior, exatamente porque é interior, é capaz de transformar profundamente a civilização, os costumes, as mentalidades, plasmando a sociedade a partir do interior, como fez o cristianismo com o mundo bárbaro e pagão.

          A cristianisação da sociedade da qual os Apóstolos e os discípulos foram iniciadores, não é fruto da força mas da conquista pacifica das almas. Mas a sociedade pacificamente conquistada, a sociedade que se tornou cristã, a cristiandade, pode e deve ser defendida, mesmo com a força, da agressão de quem quer destruir o fruto da Paixão de Nosso Senhor.

          As cruzadas nasceram para defender, de um ataque armado, a civilização cristã que não nasceu das armas, mas da pacífica conquista dos corações realizada pelos missionários. Por isso existe uma analogia, não uma identidade, mas uma intima analogia, entre a Cruz levada pelos missionários e a cruz empunhada pelos cruzados.

          O povo português, que, segundo as palavras de Pio XII, foi “cruzado e missionário“(1) exprime, numa admirável síntese, estes dois aspectos de uma mesma vocação.

          A cruzada apresenta-se como uma resposta ao apelo do Senhor que o autor da Histoire anonyme de la Première croisade recorda no início da sua obra: “Se alguém quiser vir a mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24; Mc 8, 35).

          Nesta perspectiva, para além das cruzadas históricas, existe um “espírito de cruzada” que é a disposição de ânimo do cristão pronto para sofrer, para combater até à morte, para defender ou recuperar bens espirituais mais elevados que a própria vida porque, como diz o Evangelho, quem procura a própria vida perdê-la-á.

          O espírito da cruzada é uma disposição permanente da alma humana, um amor à Cruz no amor à luta; uma procura de perfeição espiritual na luta que não é outra coisa senão uma radicalização do amor ao Bem e do ódio ao mal. “

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/BIO_980630_porto_conferencia.htm

***

Que a Providência Divina dê aos ucranianos que resistem à invasão de Putin, dê aos bravos e abnegados voluntários de dezenas de países que voam para a Ucrânia a fim de defender aquela Nação de uma injusta agressão — dê à ele o espírito de cruzada.

É esse espírito que salvará o Ocidente decadente face à agressão seja da China, seja da Rússia, seja de outras Nações que queiram nos impor a descristianização.

Nossa Senhora proteja esses novos cruzados contra a falsa direita que ocupa o Kremlin assim como Hitler o foi, a seu tempo, um embusteiro que fingia ser o cruzado sem a Cruz do Salvador.

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Souza Leão

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